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O enigma do encontro do peregrino e do papa



Sou apenas um peregrino, foram as palavras de Bento XVI em seu último discurso dirigido ao público, já nas dependências da residência papal de verão em Castel Gandolfo, nas suas últimas horas como líder maior da Igreja Católica Apostólica Romana. Interessante, muito interessante. Aquele que ficou conhecido como um dos papas mais polêmicos, ou talvez aquele que mais sofreu com as polêmicas que atingiram a igreja católica nesses últimos anos, parece ter escolhido as palavras certas para encerrar um ciclo completo da história. Acontece que as polêmicas envolvendo o sumo pontífice começaram muitos anos antes dele assumir as sandálias do pescador, numa época em que ele vestiu botas de caminhada. Pouca gente sabe e muito menos gente se lembra que em maio de 2.000, o então cardeal Joseph Alois Ratzinger foi, literalmente, um peregrino, percorrendo a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Baseando-se na crença de que os restos mortais do apóstolo Tiago estão enterrados na cripta da Catedral, Santiago de Compostela tem atraído a mais de mil anos peregrinos de todo o mundo que fazem uma jornada de vários dias em busca de iluminação, perdão ou cura. Também há os que percorrem os 800km do Caminho Francês, a rota mais conhecida do Caminho de Santiago, em busca de exercício físico, de belas paisagens, de um tempo de reflexão, de umas férias merecidas, de uma aventura diferente em um país estrangeiro. Seja qual for o motivo de sua caminhada, com suas botas, mochilas e cajados são todos peregrinos. Caminham de dia e à noite se encontram nos restaurantes e albergues. Em sua passagem por Molinaseca, um município com pouco mais de 1.000 habitantes na província de León, Ratzinger teria se hospedado no Albergue Santa Marina onde conversou durante algumas horas com Alfredo Álvarez, o proprietário que recebe de bom grado todos os caminhantes que ali param para pernoitar. Em nenhum momento da conversa que tiveram sobre temas religiosos (e durante a qual ficou evidente a divergência de opinião dos dois) aquele que parecia ser um peregrino como tantos outros revelou sua função como cardeal da igreja. Tempos depois, Alfredo teria recebido um cartão postal, enviado em 24 de julho de 2.000, desde Montpellier na França, escrito por aquele peregrino que agradecia a acolhida atenciosa do albergueiro, incitava-o a ser um bom cristão, comprometia-se a orar por ele e assinava "Louis Joseph, futuro Papa Benedicto XVI”. Interessante, muito interessante, mas não naquela época. Em julho de 2.000 aquele era só um postal de alguém que se intitulava o futuro papa. Pelo albergue Santa Marina já passaram presidentes, cantores, atores famosos, personalidades políticas e outras celebridades. Muitas delas enviaram postais de agradecimento. Na maioria das vezes passam por ali pessoas comuns, como eu e você, sem muita importância aparente. Estes são os que mais postais enviam. Somente quando Ratzinger assumiu o poder como Bento XVI é que o cartão chamou a atenção. O albergue Santa Marina é um dos melhores albergues do Caminho, um dos mais famosos, não por causa do papa, por causa do bom atendimento; e provavelmente o mais concorrido, também não por causa do papa, mas por causa do Alfredo, um sujeito bonachão, simpático e que tem por costume reunir os albergados em torno de uma mesa farta onde as boas conversas são incentivadas. Pessoalmente tive dois privilégios. O primeiro, de me alojar ali durante uma noite e desfrutar de um maravilhoso caldo galego na companhia de gente fina, elegante e sincera com quem aprendi história e geografia. O segundo, de me encontrar com o Alfredo em outros albergues, outros restaurantes, para bate-papos ainda mais informais na companhia de uns poucos novos amigos. Foi durante uma dessas conversas à noite, quando se descansa as pernas e se exercita a mente em algum lugar da Espanha, que em 2009 ouvi do próprio Alfredo a história sobre o dito postal. Alguns dizem que é mentira. Pura farsa para se promover. Outros dizem que é verdade. Há peregrinos que afirmam terem sido contemporâneos de caminhada de Joseph naqueles dias. Um artigo de 09 de janeiro de 2011 do jornal La Opinión A Coruña, intitulado El Enigma De Benedicto XVI, disponível em http://www.laopinioncoruna.es/contraportada/2011/01/09/enigma-benedicto-xvi/455275.html, oferece detalhes. Uma fotografia do postal pode ser vista no endereço http://cepedacepeda.blogspot.com.br/2010/12/molinaseca-alfredo-alvarez-perez-y-la.html. Informações oficiais dizem que análises técnicas comprovaram a veracidade do cartão quanto ao local de origem e à data em que foi escrito. O Alfredo vai mais longe nos detalhes. Me contou que teve que fugir da polícia para não ser preso por calúnia e difamação, que análises grafológicas comprovaram a autoria e que, após a comprovação, o Vaticano teria retirado as acusações alegando que "sim, o então cardeal Ratzinger esteve no Caminho de Santiago e ali recebeu inspiração do apóstolo". Se foi inspiração, clarividência ou armação, cabe a cada um pesquisar e descobrir. Talvez tudo tenha sido só uma boa trama escrita por Dan Brown. Ou talvez Albino Luciani, o padre de origem humilde, que durante apenas 33 dias (de 26 de agosto a 28 de setembro de 1978) governou a igreja como Papa João Paulo I e que prometeu reformar a igreja para devolvê-la ao povo, realmente tenha sido envenenado. Talvez pela P2, talvez por gente de dentro, talvez por alguém ligado à Roberto Calvi. A questão é que peregrinos nós também somos. Todos somos peregrinos nesta terra e nesta vida. A eleição de um papa é um fato histórico daqueles que raramente se vêem, e a renúncia então, é algo que não tinha acontecido nos últimos 600 anos. A história está acontecendo enquanto vivemos e é incrível poder acompanhar isso. Tudo é muito interessante. A hipótese de haver um peregrino que se disse papa e de um papa que se disse peregrino pode ser mentira, mas que as palavras parecem ter sido escolhidas à dedo, parecem. De qualquer modo, sucesso ao papa peregrino em sua nova jornada. Fotografia: Gil Carlos Volpato, 19 de março de 2012, Cúpula da Basílica de São Pedro, Vaticano, Roma, Itália.

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