©2017 Direitos reservados para Primeiro Andar. Todas as fotos, salvo indicação em contrário, são de autoria de Gil Carlos Volpato. Desenvolvido por aGenteCV [laboratório de criação]. Criado com Wix.com.

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No Caminho De Santiago De Compostela

Por mais de 1200 anos homens e mulheres de todas as idades, crenças, nacionalidades e culturas tem atravessado a Europa à pé ou à cavalo (e mais recentemente também de bicicleta), percorrendo uma das mais famosas rotas de peregrinação do mundo. Em seu trajeto mais conhecido, o Caminho parte dos Pirineus franceses e segue até a Catedral de Santiago de Compostela, atravessando toda a Espanha no sentido leste-oeste. Alguns o fazem para obter o perdão dos pecados, alguns para alcançar uma tão desejada graça, outros querem exercitar as pernas e esvaziar a mente e há os que apenas querem explorar os segredos do velho mundo e conhecer suas histórias. O fato é que, independentemente do porque se caminha, seja por motivos espirituais, fí­sicos ou mentais, ninguém volta igual do Caminho. Simplesmente não há como! Alguns voltam para casa mais magros (eu perdi 10 quilos na primeira vez), outros mais humildes e alguns voltam falando espanhol. O Caminho transforma! Não porque ele seja mágico ou místico mas porque ele ensina algumas lições a quem caminha. A porção desse blog sobre o Caminho De Santiago De Compostela é na verdade a coleção e resumo das lições que eu aprendi nas vezes em que estive lá. Cada peregrino percebe o Caminho com seus próprios olhos e ouvidos e chega às suas próprias conclusões, por isso nem todo mundo vai concordar comigo. Eu te convido a ver o Caminho do jeito como eu o vejo e a descobrir o seu próprio Caminho. Diferentemente de outros sites sobre o Caminho De Santiago De Compostela que apresentam textos longos e dados extremamente detalhados, preferi dividir minhas opiniões, comentários e sugestões em trechos menores sempre acompanhados por fotografias. Cada postagem feita revela, com uma imagem e muitas palavras, um pouco do Caminho. Creio que assim fica mais divertido, um passo de cada vez. Leia as postagens anteriores e acompanhe as próximas para ter uma visão cada vez maior do que te espera nas terras do apóstolo.

O CAMINHO ENSINA A CAMINHAR

 As 9 dicas abaixo resumem a minha forma de entender de me relacionar com o Caminho De Santiago De Compostela. 

Essas dicas são um bom ponto de partida para quem quer se tornar um peregrino, são quase uma filosofia de vida. Mas há muito mais para ser aprendido. Continue acompanhando as postagens desse blog para descobrir mais e mais sobre a sua caminhada. Um passo de cada vez.

Caminhe.

É bom, bonito

e barato.

E por que cargas d'água alguém iria querer caminhar 800 quilômetros? Simples: porque pode. Num mundo em que tantos estão presos à uma cama, encarcerados nas prisões ou acorrentados às circunstâncias da vida, o ato básico de caminhar é um grande privilégio. Só isso seria um grande motivo para você pegar a mochila e se jogar mundo afora mas existem outros fatores também. Percorrer à pé a rota milenar reconhecida como Patrimônio da Humanidade fortalece os músculos das pernas, estimula a mente e acalma os nervos, ao mesmo tempo em que permite que você emagreça sem regime, conheça os meandros de uma infinidade de cidades históricas, faça um milhão de amigos e pague muito pouco para comer e dormir bem. Nos mercadinhos das pequenas cidades você vai se defrontar com uma infinidade de pães, queijos, chocolates, sucos e outras guloseimas que a gente nem sonha em ter por aqui. Nos restaurantes você vai apreciar a gastronomia espanhola pagando em média 11 euros pelo Menú Del Peregrino ou pelo Menú Del Día. Nos albergues à noite você vai conhecer gente dos quatro cantos, e vai sentir como se já conhecesse cada um há muito tempo. Você vai aprender a resmungar em espanhol, treinar o seu inglês e se arriscar em pelo menos mais dois idiomas. Durante os dias, você vai atravessar paisagens que jamais sairão da sua memória. E na volta, você terá uma mochila cheia de histórias incríveis para contar e a sensação de fazer parte de algo muito maior do que você pode entender ou explicar.

Deixe todos

os guias

escritos 

em casa.

Nunca, mas nunca mesmo, leve um guia escrito junto com você para o Caminho! E se não resistir à tentação e cometer essa abominação, tenha a decência de deixá-lo escondido no fundo da mochila junto com as meias sujas. Explico: alguns guias escritos podem estar desatualizados e vão apenas confundir você, outros podem ser tão detalhistas - citando cada pedra do caminho - que vão roubar toda a surpresa da sua jornada. Qual a graça de saber que virando à esquerda na próxima curva e andando exatamente mais 12 passos você vai achar uma fonte de água e vinho, disponível e gratuita? Melhor deixar que o próprio Caminho se revele aos poucos. Use os guias ainda em casa durante a fase de planejamento da viagem e imagine as paisagens que você verá, sonhe com os cheiros e sabores que ainda não conhece e encante-se com a história dos locais por onde vai passar. Faça isso durante meses. Depois jogue o guia em algum canto e comece a caminhar. Pegue-o novamente só quando voltar e passe outros tantos meses relembrando as aventuras, o relevo, as cores, as janelas e as pessoas. Desse jeito sua experiência será três vezes mais deliciosa. Me deparei na última viagem com uma jovem espanhola de 40 e poucos anos, parada sozinha nas proximidades de Muruzabal, livro na mão, perdida. Não sabia onde estava porque o guia falava de uma igreja antiga que ela não encontrava. Cegada pelo branco das páginas, tinha andado no Caminho mas não o conhecera, não se relacionara com ele e não se deliciara com nada.

Não se

prenda às

etapas

estabelecidas.

A gente nasce sem dentes mas com dois pés, isso deve ser um sinal. Caminhar é uma das coisas mais básicas e ao mesmo tempo mais espetaculares que o ser humano pode fazer. Quando viajamos de carro ficamos restritos às estradas; de avião, aos aeroportos; mas quando andamos estamos livres para ir onde bem quisermos. Mesmo que seja a mais alta montanha ou o mais profundo vale, sempre há um jeito de se chegar lá apenas com os pés e as mãos. Essa liberdade é uma benção! Faça bom proveito dela. Enquanto estiver programando seu roteiro, estude as etapas diárias sugeridas por guias e sites especializados mas lá no Caminho, não se prenda à elas. Existem discrepâncias absurdas entre um guia e outro e você vai endoidar se quiser levar tudo ao pé da letra. Ande o quando quiser, enquanto se sentir disposto a caminhar. Se o Caminho tem aproximadamente 800 quilômetros e você pretende percorrê-lo todo em 30 dias, terá que andar em média 27 quilômetros por dia, o que é bem fácil. Mas quem disse que você deve fazer todo o Caminho em uma única viagem? E quem o obriga a parar para dormir em Roncesvalles ao final da primeira etapa? Porque não ficar em Valcarlos e aproveitar as horas claras do dia para conhecer a pequena vila? Eu pessoalmente não gosto das etapas pré-estabelecidas por guias e recomendo que você as tenha apenas como orientação. Liberte-se e permita que sua jornada seja espontânea, prazerosa, agradável e adaptada às suas realidades naquele momento e lugar específicos. A cada passo.

Ofereça e

aceite comida.

Poucas coisas na vida são tão simples e ao mesmo tempo tão cheias de significado quanto o repartir do pão. Esse gesto de companheirismo, desapego e humildade pode ser uma ótima oportunidade para fazer novos amigos, conhecer novas culturas e descobrir novos sabores. No Caminho, com gente de todas as nacionalidades andando embaixo de sol e chuva, isso torna-se ainda mais relevante. Imagine a delícia que é, depois de caminhar por algumas horas num dia ensolarado, carregando um cantil vazio, receber uma laranja suculenta acompanhada de um sorriso. Alguns habitantes locais, especialmente no interior, oferecem gratuitamente frutas aos peregrinos. Se for o caso, agradeça, aceite o presente e faça bom proveito dele, dando em troca alguns minutos de boa conversa. Na maioria das vezes é isso que eles querem: ouvir suas histórias e contar as deles. Acredite, isso vale mais do que meses de terapia. Por via das dúvidas, sempre pergunte educadamente quanto custa e evite ter surpresas constrangedoras. Cuide para não confundir as coisas: muitos fazendeiros colocam alimentos à venda em expositores (às vezes só uma tábua simples sobre um muro) como uma forma de incrementar a renda da família. Observe se há algum tipo de marcação de preços ou se contribuições espontâneas são aceitas. Nos casos em que não há nenhum responsável pela cobrança no local é costume pegar o que se quer e deixar o dinheiro no lugar devido.

Ande sozinho de dia.

Sente com

estranhos à noite.

Existem duas coisas que você impreterivelmente tem que fazer quando estiver à caminho de Santiago. A primeira delas: andar sozinho(a) durante o dia, nem que por pouco tempo, nem que apenas por alguns quilômetros. Pessoas diferentes tem ritmos diferentes, algumas caminham mais rápido do que outras e exatamente por isso, mesmo que que você vá para o Caminho com um grupo de amigos, possivelmente acabará em algum momento andando sozinho ou sozinha. Ótimo! Aproveite esses momentos para entregar-se completamente à sua jornada, sem interrupções ou distrações. Converse consigo mesmo(a) durante algum tempo. Depois cale-se e apenas contemple a paisagem enquanto anda. Você não tem idéia do quão benéfico é esse ato de desligar-se dos outros por alguns instantes. Se você tiver vontade de gritar, grite; de chorar, chore. É normal, é assim mesmo. A segunda: aproveite as noites nos albergues para interagir o máximo que puder com outros peregrinos, ouvindo suas histórias, perguntando seus nomes, vendo e mostrando fotos. Não se importe com os erros de português, inglês ou alemão. A boa vontade e o interesse em comum faz com que todos se entendam de algum jeito. Os momentos mais gratificantes que eu vivi no Caminho aconteceram pela troca de idéias e pelo intercâmbio de conhecimento com esses peregrinos - estranhos - que acabaram por se tornar meus grandes amigos de caminhada. Em tempo: Tomar caldo gallego e comer um bom pedaço de Tarta de Santiago também são tarefas obrigatórias.

Vá com

calma.

Não tenha

pressa de

chegar.

Não é uma corrida, é uma jornada. Não tem vencedores e nem uma linha de chegada te esperando, tem só o antes, o durante e o depois, e o durante é a parte mais importante das três porque tudo o que  se vê, ouve ou sente no Caminho acontece nessa etapa. Se você andar rápido demais pode perder alguns detalhes, talvez todos. Esse é um erro comum dos que andam pela primeira vez. Não faça isso! Muitos acordam de madrugada e saem tropeçando no escuro, tentando caminhar em um único dia tantos quilômetros quanto os pés suportarem. Para quê? Para atravessarem vilarejos vazios na hora da siesta e com isso não encontrarem nenhum lugar aberto para comer, para chegarem ao próximo albergue às 15h com o sol ainda alto (em algumas épocas do ano o sol se põe por volta das 20h!) e para passarem mais tempo na cama à tarde. Não vejo sentido nenhum nisso. Recomendo que você acorde por volta das 07h, deixe o albergue antes das 08h e caminhe tranquilo, parando sempre que quiser ou precisar. Converse tanto quanto possível com a população local, cumprimente cada um que passar por você, compre e descasque laranjas. Lembre que mesmo que o Sol desapareça atrás de alguma montanha, geralmente ele reaparece depois da próxima curva. Aprecie tudo, diminua o ritmo. Mas também não se preocupe em coletar todas as estrelinhas. Algumas coisas vão ficar para trás, intocadas, esperando para abrilhantar a sua próxima caminhada e lhe dando um motivo a mais para voltar, como se você precisasse de um.

Leve só

o que você mesmo pode carregar.

Insistimos em nos cercar de um monte de tralhas que teoricamente facilitam nosso dia-a-dia e pagamos caro por isso. Trabalhamos muito para ter as coisas e esquecemos da gente, de toda a gente. Em casa temos todo o tipo de acessórios e aparelhos para nos proporcionar um conforto extra do qual realmente não precisamos e quando vamos para o Caminho de Santiago queremos levar tudo isso conosco. O peregrino de primeira caminhada tem medo de passar frio e fome, de ficar isolado no meio da floresta, no escuro, rodeado por animais selvagens prontos para devorá-lo, e por isso coloca na mochila pederneira, lanterna de mão, lanterna de cabeça, lanterna de bolso, repelente, kit de primeiros socorros, guias escritos que pesam 2 quilos cada um, a faca do Rambo, o frigobar, pasta para sapatos, celular via satélite, apostilas do cursinho, 4 litros de água e muito mais. Bobagem! Acaba apenas cansando de carregar esse monte de tranqueiras sem tê-las usado. Ao preparar sua mochila lembre que o peso máximo dela deve estar entre 10 e 20 porcento do seu peso corporal e que, em todo o Caminho você nunca vai estar a mais de 4 ou 5 quilômetros da vila ou cidade mais próxima e continuamente vai cruzar alguma estrada ou rodovia onde pode pedir ajuda ou pegar uma carona em caso de emergência. A civilização está sempre ali, escondida mas pertinho. A primeira lição que você vai aprender no Caminho: precisamos de muito pouco para viver. Me acredite, quanto mais você caminha, de menos coisas você precisa. Leve apenas o básico.

Tire as botas.

Tire fotos!

Contemple o máximo que puder. Contemplação é a palavra chave do Caminho. Pare para ver as flores, apreciar as vitrines das padarias, fazer um agrado no cachorro, sentir o vento, tirar as botas por um instante e comer um pedaço de queijo. Pessoalmente acho que o Caminho não é mágico nem místico. Duvido que algum tipo de energia emane das pedras ou dos campos, mas acredito que a forma como nos relacionamos com os ambientes que o formam e com as pessoas que encontramos ao longo dele podem nos transformar. Quando esquecemos das contas que ficaram em casa e passamos a perceber as coisas simples ao redor, quando sentimos o cheiro das estrebarias e entendemos que é dali que vem o leite das caixinhas que compramos nos supermercados, quando damos ouvidos à outros peregrinos e cantamos em italiano com eles, somos influenciados de alguma maneira, de muitas maneiras. Isso nos muda! Atualmente nenhum trecho do Caminho é suficientemente afastado da civilização. A grande luta do peregrino moderno não é contra os elementos da natureza selvagem que ele encontra, mas contra o relógio e a velocidade da sociedade de onde ele vem. É preciso dar tempo, tirar um tempo, e deixar o tempo passar. O poder transformador do Caminho está em aprendermos a reduzir o passo para apreciar o belo, e quantas coisas belas estão esperando para nos encantar entre o primeiro e o último passo. Meses depois, quando olhamos as fotos que trouxemos, a beleza no salva da rotina mais uma vez.

Use tampões de ouvido.

Boa noit.. Zzz

Ouvir as histórias que os outros peregrinos tem para contar é algo muito bom de se fazer ao redor da mesa durante e após o jantar, mas continuar ouvindo-os madrugada adentro enquanto você tenta (ou precisa desesperadamente) dormir, pode ser um grande incômodo. Falemos a verdade, muita gente ronca! Acontece na sua casa, porque não aconteceria num quarto de albergue com quatro, dez ou trinta outras pessoas dormindo? Então se prepare e tenha consigo um par de tampões de ouvido. Isso garantirá a boa noite de descanso que todo peregrino precisa. Se você for daqueles que dormem cedo, leve também vendas para os olhos. Elas não são essenciais mas podem ajudar se você tem sono leve e desperta quando alguém acende a luz do quarto. Pessoas precisam ir ao banheiro durante a noite e algumas delas talvez precisem acender alguma luz. Nada grave. Por questão de educação a maioria se utiliza de pequenas lanternas capazes de mostrar o caminho até o alívio sem perturbar o sono alheio. Muitas companhias aéreas fornecem um kit com tampões e vendas; se for o caso, guarde-os para usar em solo. Pode ser que quando todos se aquietarem e as luzes se apagarem, seu corpo queira dormir mas sua mente queira reprocessar tudo o que absorveu no dia, mantendo-o acordado. Uma dica legal para essa hora é usar fones-de-ouvido em conjunto com uma playlist de músicas tranquilas e relaxantes previamente selecionadas. Ouça em volume baixo e deixe o pensamento correr pelos campos espanhóis ao lado de mil carneirinhos.

MAPA

Confira no mapa interativo abaixo o trajeto da Rota Francesa do Caminho de Santiago de Compostela, incluindo pontos de passagem e possíveis locais de parada, mas não se preocupe muito com ele e nem leve-o junto na sua viagem. Quando estiver na França ou na Espanha, deixe que o Caminho se apresente à você com todas as suas surpresas, a cada passo. | Movimente, amplie, reduza e desloque o mapa livremente. Aproveite e tente descobrir onde fica a sua casa. Sempre é bom lembrar de onde a gente veio.