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Vale ou não vale?


Em 17 de junho passado, o Diário Catarinense (http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2017/06/florianopolis-entra-na-rota-oficial-do-caminho-de-santiago-de-compostela-na-espanha-9818203.html) publicou um artigo com o título "Florianópolis entra na rota oficial do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha" onde lia-se, "o trajeto no norte da Ilha de Santa Catarina irá fazer parte da rota oficial". O texto, de autoria de Karine Wenzel, informava que o trecho de 21 quilômetros entre Canasvieiras e Ingleses, em Florianópolis, poderia ser reconhecido como parte do percurso mínimo de 100 quilômetros de caminhada necessários para se obter o certificado de peregrinação oficial, a Compostela. Os outros 79 quilômetros deveriam ser percorridos na Galícia. Ainda segundo o texto, a iniciativa partiu do jornalista e representante da Catedral de Santiago de Compostela na Arquidiocese de São Paulo, Fábio Tucci Farah, e de Mariana de Assis Viana Mansur; que obtiveram o apoio da Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela (ACACSC), incluindo seu presidente, João Élcio Trierveiler, para definir o trajeto e o submeteram à aprovação da catedral da cidade espanhola. A rota manezinha teria sido aprovada oficialmente em 2 de abril. Em 28 de junho, postei na minha conta pessoal do Facebook o seguinte comentário: "Para quem quer ter uma pequena idéia (pequena mesmo!) do que é o Caminho De Santiago De Compostela, serve. Mas não se engane: a experiência de caminhar esses 21 quilômetros em apenas um dia aqui no Brasil pode não se parecer em nada com a aventura de andar trezentos, quatrocentos ou até os oitocentos quilômetros em dez, quinze ou trinta dias lá na Espanha." No dia seguinte (29), mais de 500 pessoas, incluindo pelo menos três amigos meus (que representaram muito bem a cidade de Bom Retiro, diga-se de passagem) se reuniram para andar pelos 21 quilômetros. E eis que hoje, através da postagem do amigo Valter Ralf Noebauer no FB, tomo conhecimento do artigo de Luiz Carlos Ferraz publicado no Jornal Perspectiva (http://jornalperspectiva.com.br/caminho-de-santiago/o-caminho-nao-esta-no-brasil/) em que ele diz que as autoridades da Galícia reagiram​ com surpresa e indignação ao tomarem conhecimento de que a nova trilha catarinense estaria sendo divulgada como parte oficial do Caminho De Santiago De Compostela. O autor do texto deixa bem claro que o Caminho não está no Brasil, ao citar Rafael Sánchez Bargiela, diretor gerente da S.A. de Xéstion do Plan Xacobeo, a empresa responsável pela gestão do Caminho de Santiago na Galícia: “Não estamos de acordo com isso. O Caminho de Santiago é um caminho histórico, portanto, um caminho que busca recuperar as rotas que os peregrinos fizeram na Idade Média. E na Idade Média não havia peregrinos jacobeos no Brasil. [...] Mas sobre esta iniciativa que se promove em Santa Catarina estamos completamente em desacordo. Quem divulga isso não pode utilizar a denominação de Caminho de Santiago, pois um dos elementos que identifica o Caminho de Santiago é a identidade história. [...] “Também tivemos uma consulta da Embaixada da Espanha em Brasil e dissemos o mesmo: que isto não se pode chamar de Caminho de Santiago e que não estamos de acordo com essa divulgação." Alguns críticos aqui no Brasil já estão chamando o caso catarinense de farsa, outros de oportunismo, e alguns defendem a ideia. Ainda não conheço todos os fatos e não posso emitir uma posição sobre isso ser realmente um golpe ou apenas um equívoco, mas como peregrino e como entusiasta do Caminho de Santiago de Compostela, para mim a questão é que, volto a dizer, a experiência de caminhar esses 21 quilômetros em apenas um dia aqui no Brasil não se parece em nada com a experiência vivida em terras francesas e espanholas, e mesmo que o trecho catarina seja oficialmente reconhecido pela Catedral de Santiago de Compostela, pelo tiozinho que toca o sino e pelo papa (reclamações com o bispo!), as duas coisas são completamente diferentes. Sair de manhã sabendo-se exatamente onde parar no final da tarde, caminhar sem mochila, entender completamente o idioma (não considerando-se os óióiói!), comer peixe e não caldo galego, pagar em reais, não jantar com 15 estranhos, não dividir o quarto com trocentos roncadores nos albergues, não ver neve em março, não beber água da bica, não sentir-se um estrangeiro e, pior de tudo, não tomar ColaCao!, fazem com que o caminho daqui seja completamente diferente do Caminho de lá. Não significa que o daqui seja pior ou melhor, mas que simplesmente não dá para passear de mãos dadas com a namorada na praia e acreditar que isto é uma antevisão perfeita do que será a vida de casado. O Caminho De Santiago, com todas as suas características, nuances e variáveis, é uma experiência muito mais impactante. Um dia só é insuficiente para se ter a noção do que isto representa. Por conta disso, alguns poderão caminhar em Florianópolis e achar que o Caminho De Santiago é apenas cansativo, ou chato, ou entediante; e isso seria um tremendo tiro no pé dos organizadores (se seu objetivo é o de promover a rota espanhola). Talvez a grande vocação do caminho manezês seja a de possibilitar algum tipo de preparação física aos futuros peregrinos ou a de matar um pouquinho a saudade daqueles que já foram para a Espanha e estão com vontade de voltar. Fotografia: Gil Carlos Volpato, 27 de março de 2017, em Puente La Reina, Espanha.


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